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Publicos das culturas, os lugares dos estranhos
Rui Matoso
Setembro, 2008
Mestrado em Prdticas Culturais para Municipios
Faculdade de Ciencias Sociais e Humanas
Universidade Nova de Lisboa
Rui. Matoso | rui.matosofgiginail.com | www.culturaviva.com.pi
The modern social imaginary does not make sense without strangers.
Michael Warner
As the performance is about to begin, you look at the audience(...)
but you also notice that everyone looks distressing similar.
Bonita M. Kolb
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Introducao
Quando Ortega y Gasset afirma que "viver e estar entregue ao inimigo, ao mundo" (Gasset:
142) da a entender que nao se pode compreender a subjectividade prescindindo dos contextos, do
momento historico em que se vive e das pessoas com quern se estabelecem relacoes. Neste caso,
acrescenta, haveria que substituir o principio cartesiano resumido no cogito ergo sum, e na sua vez
afirmar: penso, logo somos o mundo e eu.
A composicao social das nossas cidades esta em constante mutacao, tendo a questao da
diversidade cultural assumido nos ultimos anos uma importancia politica sem precedentes. E nosso
objectivo neste artigo equacionar o seu significado e as suas praticas do lado dos publicos da
cultura.
Estarao as instituicoes publicas no geral, e as privadas com financiamento publico,
suficientemente atentas a participacao dos individuos marcados pela diferenca?
Globalizacao cultural, migracoes e cidades
Bastara estar um pouco atento para nos apercebermos que existem diferentes visoes do
fenomeno denominado globalizacao, desde as mais hegemonicas e afinadas pelo diapasao do
"capitalismo triunfante", as contra-hegemonicas que vem promovendo, desde o Forum Social
Mundial, uma alter-globalizacao - sob o ja bastante divulgado slogan "um outro mundo e possivel".
De uma forma ou de outra, parece exisitir consenso quanto ao facto de a globalizacao ser a
designacao dada a actual tendencia do processo historico em curso. Esta tendencia desenvolve-se
segundo diversas dimensoes: politica, economica, social, ambiental ou cultural; as quais produzem
variados efeitos ou consequencias.
A dimensao cultural da globalizacao, como qualquer das restantes, esta sujeitas a multiplas
interpretacoes e modelos teoricos. Talvez o modelo mais amplamente divulgado seja o do
"imperialismo cultural", caracterizado como uma dominacao estrategica efectuada atraves da
difusao e homogeneiza9ao de valores e produtos cultural s por multinacionais e grandes
corporacoes, designadamente pelas americanas. Este modelo pressupoe um elevado pendor
mercantilista e a passividade do consumidor ao nivel da recepcao cultural.
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Segundo Diana Crane existem ainda outros tres modelos teoricos:
- O modelo reticular ou de fluxos culturais, contrariamente ao do 'imperialismo cultural' nao e
sustentado a partir de um centro que difunde para as periferias. Deste modo a globalizacao
cultural corresponderia a uma rede de fluxos e trocas culturais em que os consumidores podem
tambem ser produtores. Nesta tipologia a tonica e colocada na hibridizacao (crioulizagdo) em
vez de na homogeneizacao cultural. Esta forma de globalizacao e suportada por uma
infraestrutura tecnologica que permite a existencia de redes mundiais de producao e troca
simbolica;
- O modelo veiculado pela teoria da recepcao, enfatiza o papel activo dos publicos, ao considerar
que os diferentes grupos ou comunidades interpretam de maneira diferente os mesmos objectos
culturais. Assim, em vez de imperialismo pode falar-se em multiculturalismo, isto porque estas
comunidades interpretativas nao consideram que os produtos difundidos pelas multinacionais
globais sejam uma ameaca as suas identidades locais;
- Um ultimo modelo referido por Crane e aquele que impele a uma competicao por parte de
estados, regioes ou cidades, os quais pretendem ver as suas formas culturais (artisticas,
industrials ou patrimoniais) como mercadorias consumiveis mundialmente. Este modelo esta na
origem das estrategias de marketing urbano (Crane).
Estas diferentes concepcoes podem actuar simultaneamente sobre o mesmo territorio, nao
sendo por isso estanques ou auto-imunes, pelo contrario, contaminam-se criando tensoes complexas
sobre a malha urbana.
O modelo que aqui mais nos interessa e aquele que reune globalizacao e teoria da recepcao,
uma vez que e aquele que se concentra no papel activo dos publicos da cultura, enquanto resposta
especifica a determinado produto cultural.
A relacao entre globalizacoes, migracoes e cidades atingiu uma visibilidade impossivel de
nao se verificar empiricamente; de tal modo que se tornou dificil imaginar a preservacao
incontaminada das culturas locais. Assiste-se antes a uma heterogeneidade social e cultural, de
estilos e comportamentos sociais. Os beneficios de uma diversidade cultural global e local, por
contraponto a uma unicidade homogeneizante, sao defendidos por T. S. Eliot quando refere que "na
realidade, podemos depreender do que ja se disse sobre o valor das culturas locais que uma cultura
mundial, que seria tao-so uma cultura uniforme, nao seria cultura alguma. Teriamos uma
humanidade desumanizada. Seria um verdadeiro pesadelo." (Eliot: 70) (italicos no original).
Os intercambios entre as dimensoes global e local das culturas tanto podem dar-se por via
imaterial com recurso aos meios de comunicacao e as tecnologias de imagem e informacao -onde os
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processos de digitalizafjao da cultura vem incrementando estas possibilidades-, ou por via material
atraves da troca de produtos ou do fluxo migratorio internacional- ou diasporico- de pessoas. Para
os diversos tipos de fluxos globais, Arjun Appadurai encontrou um esquema baseado no sufixo
paisagem para identificar a etnopaisagem, isto e, a paisagem de "pessoas que constituem o mundo
em deslocamento que habitamos: turistas, imigrantes, refugiados, exilados, trabalhadores (...)", ou a
mediapaisagem para definir a "distribuicao da capacidade electronica para produzir e disseminar
informacao (..)" (Appadurai: 50-56).
A uma escala global a questao da diversidade cultural vem sendo interpretada e aplicada sob
varias perspectivas, e onde nao esta alheia a dinamica da Historia no que concerne a viragem pos-
-colonial que provocou a emergencia do sentimento de um direito a diferen9a generalizado a varias
categorias (genero, orienta9ao sexual, etnica,...).
Na Europa, a tonica vem sendo colocada no reconhecimento das diferencas associadas a
presenca de pessoas (cidadaos parciais1) de paises de origem nao europeus, designadamente quanto
a articula9ao da diferen9a etnica no espa90 publico, "para simultaneamente dar relevo ao nosso
patrimonio comum e reconhecer a contribui9ao de todas as culturas presentes nas nossas
sociedades, e necessario alimentar a diversidade cultural num contexto de abertura e de
intercambios entre diferentes culturas. Porque vivemos em sociedades cada vez mais multiculturais,
devemos, por conseguinte, promover o dialogo intercultural e as competencias interculturais."
(Comissao Europeia, Comunicagao sobre uma agenda europeia para a cultura num mundo
globalizado, Bruxelas, 10 de Maio de 2007).
Certamente que as apologias oficiais no ambito europeu, e em abstracto, sao por si so
louvaveis. Contudo, serao as diferen9as concretas (politicas, geograficas, dimensionais, etc.) entre
as cidades europeias que determinarao a pratica in situ da diversidade cultural e do dialogo
intercultural. E preciso nao olvidar que, como anteriormente referimos, a globaliza9ao nas suas
diferentes perspectivas e dimensoes origina dilemas localizados, sendo que um dos mais
observaveis e aquele que coloca em confronto as perspectivas de um urbanismo competitivo
(marketing urbano) e as do pluriculturalismo/transculturalismo (diversidade cultural), por um lado,
ou a tensao entre homogeneiza9ao cultural e heterogeneiza9ao cultural (Appadurai: 49), por outro.
Um dos estudos de caso passiveis de evidenciar esta tensao entre o marketing urbano e a
diversidade cultural sera a cidade de Barcelona. Num texto recentemente publicado na revista
Humboldt (numero 95/2007) sob o tema "apropria9oes da cidade", Manuel Delgado2 chega mesmo
1 O termo "cidadaos parciais" e usado para referir o estatuto dos emigrantes que nao sendo ilegais no pais de
acolhimento estao ainda assim sujeitos a restricoes de diversos tipos: condicoes de emprego, direitos de cidadania,
direitos legais, etc.
2 Manuel Delgado (1956, Barcelona) e professor titular de Antropologia Religiosa no Departamento de Antropologia
Social da Universidade de Barcelona. Tem trabalhado sobre a construcao de identidades colectivas em contextos
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a afirmar que "no caso de Barcelona, a constatacao de que converter a cidade em puro produto de
marketing exigia que ruas e pracas estivessem sob permanente observacao criou a necessidade de
eliminar ou ocultar qualquer elemento que pudesse contestar a imagem que se pretendia oferecer de
um espaco publico isento de qualquer ingrediente de conflituosidade" (Delgado: 34). O que aquela
postura autoritaria pressupoe e a homogeneizacao da imagem da cidade tornando-a assim mais
adequada a um uso cerimonial ou turistico, numa logica funcionalista e tautologies recusando as
marcas de heterogeneidade proprias da accoes e interaccoes significantes e das realidades
fragmentarias e incoerentes que compoem as varias cidades existentes dentro da cidade, chegando-
se mesmo a estigmatizar minorias etnicas e culturais.
Ainda assim persiste um enigma, que e o de saber como se relaciona este programa de
gentrificacao do centro da cidade com o Piano Estrategico de Cultura de Barcelona (Nuevos
Acentos 2006), no qual e explicitamente referido que «el reto actual de la cultura, y no es un reto
menor, es extenderla a todas las capas sociales. Las ciudades son cada vez mas complejas y la
cultura permite la creation de valores democraticos y de convivencia, y es bueno que todo el mundo
participe. Las nuevas realidades del siglo XXI han convertido las ciudades en espacios de
intercambio desde los que podemos imaginarnos el futuro.»?
Portugal, em termos de politicas de gestao da diversidade cultural, tomou como opcao o
modelo Intercultural3, visao igualmente patente no Piano para a Integragao dos Imigrantes
(Resolucao do Conselho de Ministros n.° 63-A/2007), no qual se preve o "reforco da expressao da
diversidade cultural em todos os dominios e actividades com incidencia na area da Cultura" (Artigo
58), designadamente atraves dos equipamentos culturais, bem como o "apoio a iniciativas que
promovam o dialogo intercultural e a multiculturalidade" (Artigo 59).
Segundo o MIPEX4 (Index de Politicas de Integragao de Migrantes) Portugal encontra-se
posicionado em segundo lugar, logo a seguir a Suecia. O que significa que Portugal criou um
quadro juridico para a integracao composto por politicas favoraveis e pelas melhores praticas. Neste
ponto, e indo de encontro a tematica que aqui propomos abordar, seria util conhecer qual a
representacao dos imigrantes na composicao dos publicos da cultura dos diversos equipamentos
culturais.
urbanos. A sua obra mais recente e Sociedades movedizas (2007).
3 "Mais do que uma coexistencia pacifica de diferentes comunidades e individuos, o modelo intercultural afirma-se no
cruzamento e miscigenacao cultural, sem aniquilamentos, nem imposicoes. E uma dinamica interactiva e relacional.
Muito mais do que a simples aceitacao do "outro" a verdadeira tolerancia numa sociedade intercultural propoe o
acolhimento do outro e transformacao de ambos com esse encontro, decorrendo dai um novo "N6s". Sempre plural,
mas tambem coeso." (Alto Comissariado para a Imigracao e Dialogo Intercultural. Editorial de Julho 2007. Versao
electronica disponivel em http://www.acidi.gov.pt/docs/editoriais/EDITORIAL_JULHO_2007.pdf. [Acedido em 14-
03-2008].
4 Versao electronica acessivel em http://www.acime.gov.pt/docs/Eventos/MIPEX_2007.pdf. [Acedido em 13-03-
2008].
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Espa?os publicos e sociabilidades interculturais
Consideramos os equipamentos publicos (semi-publicos, de facto, porque existem sempre
algumas formas de condicionamento, p. ex., o preco do ingresso), a cidade com os seus diversos
espacos publico urbanos, os meios de comunicacao enquanto espaco publico discursivo, ou os
dispositivos reticulares que permitem a intersubjectividade sem constrangimentos. Contudo, uma
caracteristica que deve ser sempre tida em conta e a dimensao conflitual do espaco publico, conflito
social, politico, cultural, etc.
Os equipamentos culturais sao espacos publicos relacionais - provocam formas de
sociabilidade e mediacoes-, e lugares onde se da o encontro entre os textos (intertextualidade) e a
sua recepcao pelos publicos, como refere Michael Warner "publics are essentialy intertextual (...)no
longer mediated by the codex format." (Warner: 16). Sao tambem espacos produzidos socialmente,
motivadores de praticas sociais especializadas.
Em suma, trata-se de espacos simultaneamente abstractos -porque interpretativos,
enunciativos ou discursivos, geradores de intercomunicacao- e de espacos fisicos/materiais "de
interaccao e encontro das diferencas sociais, etnicas e culturais que, ai, tendem a suspender ou a
reduzir a sua desconfianca mutua e que se condensa sobretudo na cidade contemporanea." (Fortuna
e outros: 90).
Neste momento ocupamo-nos apenas da hipotese do alargamento da composicao dos
publicos, de qualquer modo parece-nos empiricamente impossivel dissociar a oferta da procura
cultural, a programacao cultural dos equipamentos, mediadora e geradora da oferta, interage com os
publicos atraves das mediacoes na esfera publico, cultural. Aos diversos modus faciendi da
programacao cultural corresponderao diversas estrategias (ou ausencia de estrategias) e graus de
legitimacao, bem como concepcoes distintas de comunicacao com os publicos, tidos na sua
diversidades, estratificacoes ou segmentacoes.
As denominadas praticas culturais de saida (por contraponto as praticas domesticas) sao por
excelencia aquelas que permitem o uso colectivo dos espacos e dos equipamentos publicos.
Referimo-nos mais especificamente as praticas de 'cultura cultivada', e nao tanto as praticas de
lazer, uma vez que sao aquelas que melhor traduzem as «tensoes a luz das quais se reequacionam
hoje as condicoes de cidadania e de participacao na vida colectiva, sobretudo no contexto urbano»5,
sobrecarregadas ainda com a pressao da reproducao social, nomeadamente no que respeita a
estratificacao classica dos publicos, cujo efeito parece favorecer a seleccao e a exclusao social, e
nao tanto uma configuracao desses espacos (equipamentos culturais publicos) como lugares de
5 Carlos Fortuna et al. (1999)
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cosmopolitismo e interculturalidade, lugares de mediafjao simbolica e afectiva entre os individuos e
entre estes e a cidade, e lugares tambem do confronto dos sujeitos com os seus pares e os estranhos
(imigrantes, estrangeiros, turistas,etc).
A este proposito vale a pena citar uma das conclusoes do estudo coordenado por Carlos
Fortuna: « No caso portugues, a partir do terreno das praticas e dos consumos culturais, bem como
das especialidades em que decorrem, nao e tanto possivel ir alem do reconhecimento que o espaco
publico tanto pode ser redinamizado e proporcionar uma sociabilidade mais densa e uma
participacao mais democratica com beneficios para a qualidade da cidadania vivida, como pode ser
instrumentalizado ao servico do reforco das competencias e das capacidades j a estabelecidas e da
cristalizacao das hierarquias sociais.»
Neste sentido, apesar de os discursos sobre a democratizacao da cultura (o acesso universal)
produzirem formas de consenso generalizado (retorica), as praticas efectivas acabam por revelar
profundas clivagens e realidades excludentes.
Este 'consenso operacional' e produzido e controlado pelas instancias de poder (politico,
mediatico ou institucional) favorecendo a reproducao social ,i.e., a reproducao das desigualdades,
alimentando a inertia no mundo social, cuja causa e existencia aparece aos olhos do mundo como
sendo eterna e metafisica6, irresoluvel portanto. Deste modo, «a rela9ao com o poder toma, por
consequencia, um torn inevitavel de uma certa submissao ou aceita9ao da ordem estabelecida.»7. A
resigna9ao acaba por ser o resultado da hegemonia consensualista (violencia simbolica),
impregnando fortemente as estruturas do habitus, pois, e na sua dupla estrutura9ao (estrutura
estruturante e estrutura estruturada) que se inscrevem {embodiment), reproduzem ou emergem as
«disposi9oes duraveis», os esquemas de percep9ao e as fun9oes cognitivas .
Se tivermos em considera9ao que os efeitos do habitus podem ser infletidos de forma
inovadora e nao reprodutora, e se considerarmos que as Artes e as praticas culturais possuem essa
capacidade disruptiva, temos que as institui9oes culturais podem ser esses lugares de transforma9ao
social e de sociabilidades abertas ao estranho (ao estrangeiro, ao imigrante, as orienta9oes sexuais
nao hegemonicas, em suma, ao outro, para alem do homem branco europeu de classe media, etc..) e
mais susceptiveis de proporcionar o tao divulgado dialogo intercultural.
E que so pode existir verdadeiro dialogo intercultural - intercompreensao/interconhecimento
entre individuos com origens culturais distintas - se o espa90 publico propiciar a interlocu9ao e o
reconhecimento do «direito humano a narra9ao»8, que e fundamental para a constru9ao de
6 Boudieu dixit no filme-documentario " La sociologie est un sport de combat"
7 Joao Pissarra Esteves, Espago Publico e Democracia: comunicagao,processos de sentido e identidades pessoais,
Lisboa, Colibri, 2003, p. 137
8 Cfr., Homi K. Bhabha, «Etica e estetica do globalismo: Uma perspectiva pos-colonial», vaA urgencia da teoria,
Gulbenkian, 2007, p. 25
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comunidades diversificadas e nao consensuais. O que requera das instituicoes politicas e culturais a
missao de promover igualmente o direito a ser ouvido, isto e, o direito a expressao cultural como
«direito a diferenca em igualdade»9, reclamando-se deste modo uma «cidadania simb61ica»10 nao
securitaria - sem a preocupacao, entretanto ja naturalizada e impregnada no habitus dos cidadaos
europeus, com o selo da certificacao das origens culturais ou das identidades etnicas11.
Como salienta Laurent Fleury, «Loin d'etre neutre, l'organization de la relation entre
individus et oeuvre d'art produit des effets qui permettent de conclure au pouvoir des instituitions
culturelles (...) les instituitions culturelles apparaissent ainsi comme le resultat mais aussi la
condition de possibility des politiques publiques de la culture.»12
9 Etienne Balibar (apud Homi K. Bhabha. 2007;) p. 34
10 Idem p.37
11 A questao da 'integracao dos imigrantes' gera normalmente alguns equivocos. No entender de Rui Pena Pires, «o
primeiro desses equivocos consiste em pensar a imigracao como o processo de formacao de minorias etnicas. Ora a
formacao de minorias etnicas e, frequentemente, nao o resultado da imigracao em si, mas antes a consequencia da
acumulacao de situacoes de exclusao e de estigmatizacao nas populacoes imigradas. Mais rigorosamente, e a
consequencia da procura, por parte dos excluidos, de uma identidade positiva com que possam enfrentar os
processos de estigmatizacao de que sao alvo. (...) O segundo equivoco consiste em atribuir aos imigrantes uma
"identidade cultural" e uma pertenca comunitaria referenciaveis a sua origem (...) uma representacao estereotipada
do "outro"» ( Rui Pena Pires, Emigrados em Portugal, revista Con(m)textos de Sociologia n°l/2001, Associacao
Portuguesa de Sociologia, p. 10)
12 Laurent Fleury, Sociologie de la culture et des pratiques culturelles, Paris, Armand Colin, 2006, p. 91-107
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3. Publicos da cultura e institutes culturais, que lugares para o estranho?
No texto original de Georg Simmel, intitulado Exkurs iiber den Fremden13, o significado de
«estranho» e equivalente ao de «estrangeiro», «forasteiro» ou «desconhecido». Sendo ai
considerado como aquele que de alguma forma reside (mais ou menos temporariamente) num
determinado territorio urbano, isto e, como a pessoa que chega hoje mas que nao parte ja amanha,
tendo por isso tempo suficiente para interagir com o grupo preexistente, e do qual nao fazia parte
desde o inicio.
Da perspectiva do grupo de acolhimento, o estranho e «a imprevisibilidade personificada
que veio surpreender o quotidiano, sobretudo o quotidiano citadino (...) o estranho e uma categoria
terceira que nos forca a reflectir sobre uma serie de possibilidades e contingencias de
comportamentos e atitudes.»14
A relacao com o estranho e caracterizada por uma combinacao de proximidade e de
distancia. O estrangeiro esta proximo de "nos" enquanto sentirmos a existencia de caracterizacoes
comuns (nacionalidade, estatuto social, profissao ou a pertenca a especie humana em geral). Mas
esta distante quando aparece a sensacao de estranheza - igualmente possivel tambem em relacoes
intimas- que indicia um sentimento de indiferenca face a singularidade das caracterizacoes comuns,
devido ao aparecimento na consciencia de uma generalizacao da ideia de que essas caracterizacoes
podiam afinal ser atribuidas a qualquer outro individuo, numa experiencia ja vivida milhares de
vezes15.
Simmel explicita que havera ainda um outro grau de estranheza radical que impossibilita a
relacao entre estrangeiro/estranho e o grupo, uma estranheza que gera um sentido nao-positivo de
estrangeiro como, no exemplo apontado pelo autor, aconteceria entre Gregos e Barbaras. Esta
situacao corresponderia a uma «tolerancia negativa», enquanto expressao da indiferenca e da
distancia que surge sempre quando encontrando-se num espaco confinado, por exemplo a praca
publica urbana -ou o equipamento cultural publico-, as pessoas nao interagem nem comunicam
entre si ou segregam-se e invisibilizam-se simbolicamente. O que por esta via estaria em causa seria
uma diminuicao da «intensidade e da frequencia com que se insinuam nos quotidianos urbanos as
ambivalentes relacoes sociais de estranhamento e a supremacia dos espacos domesticos como
refugios».16
Sendo este um diagnostico geral das condicoes actuais de retraccao do espaco publico, uma
13 Georg Simmel, Fidelidade e gratidao e outros textos, Lisboa, Relogio D'agua, 2004, p. 133
14 Carlos Fortuna et al. (1999), p. 440
15 Georg Simmel (2004), p. 139
16 Ibidem.
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politica que promova a diversidade e a cidadania cultural, enquanto aspectos fulcrais da democracia
cultural, tera de sustentar o direito a ser-se diferente, para todos aqueles que, de uma maneira ou de
outra, foram colocados do lado de fora das normas sociais e culturais dominantes.
Tony Bennet equaciona quatro principios de democracia cultural focados na preocupacao
politica de passar de um paradigma da homogeneidade a um da heterogeneidade, tais como17:
- a igualdade de oportunidades para a participacao na totalidade das actividades que
constituem o campo cultural da sociedade em questao;
- a obrigacao dos governos e outras autoridades de nutrir as fontes da diversidade atraves de
mecanismos imaginativos;
- a obrigacao da promocao da diversidade de modo a estabelecer interaccoes entre diferentes
culturas, em vez de motivar enclaves separados.
Retomando agora a nocao de 'publicos da cultura', enquanto conceito sociologico e nao
como objecto de analise, podemos entao falar de publicos como um tipo espectftco de relagdo
social, mais concretamente da relacao das pessoas com as instituicoes especializadas das sociedades
contemporaneasM, instituicoes estas que configuram assim um espaco (semi)publico relacional.
Do lado dos individuos enquanto potenciais elementos constituintes dos 'publicos da
cultura', convira esclarecer o nosso acordo em relacao as perspectivas "individualistas" dos modos
de ser publico. Neste sentido temos em consideracao os trabalhos de Bernard Lahire19, Mark
Granovetter20 ou de Francois de Singly21. Esta linhagem de leituras implica a consideracao de
disposicoes multiplas e mutaveis, da assuncao da identidade como sendo essencialmente dinamica e
de repertorios plurais de orientacao da accao da pessoa singular. A simples existencia de multiplos
publicos possibilita a multipla pertenca dos individuos. A este proposito Lahire refere que « Plutot
que de presupposer la systematique influence d'un passe incorpore necessairement coherent sur les
comportements individuels presents (...) La pluralite des dispositions et des competences dune part,
la variete des contexts de leur actualisation d'autre part sont ce qui peut rendre raison
sociologiquement de la variation des comportements d'une meme individu, ou d'une group
d'individus (...)»22.
17 Menciono apenas alguns topicos referidos porTony Bennet.
Cf, Tony Bennet, Differing Diversities, transversal study on the theme of cultural policy and cultural diversity,
Estrasburgo, Edicoes do Concelho da Europa, 2001
18 Cf., Antonio Firmino da Costa, «Dos publicos da cultura aos modos de relacao com a cultura:algumas questoes
teoricas e metodologicas para uma agenda de investigacao», Publicos da Cultura -actas do encontro organizado
pelo Observatorio das Actividades Culturais, OAC, 2004, p. 131
19 Bernard Lahire, La cultures des individus, Paris, La Decouvert, 2006
20 Mark Granovetter, The strength of weak ties, Sociological Theory, Volume 1 (1983), 201-233.]
21 Frangois de Singly, Uns com os outros, quando o individualismo cria lagos, Piaget, 2006
22 B. Lahire (2006), p. 14
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Os publicos, entendidos como comunidades provisorias ou passageiras que se mantem para
la da circunstancia ou do objecto que contemplam23, geram um espaco publico por onde circulam
discursos de forma minimamente auto-organizada. Um publico nao e apenas um aglomerado de
pessoas que 'por acaso' ocupam um lugar em determinada ocasiao, ou o seu somatorio.
Como refere Michael Warner, «The peculiar character of a public is that it is a space of
discourse organized by discourse.»24 Os discursos tornados publicos (classificacoes, opinioes,
criticas, comentarios, interpretacoes, etc.) geram campos de recepgdo onde se estruturam
legitimidades e contra-legitimidades, acordos e desacordos ou consensos e conflitos, produzidas
pelos actores sociais, cujas relacoes ultrapassam obviamente os lacos de amizade ou vizinhanca.
Contudo, para que sejam possiveis praticas/performances intertextuais em ambiente intercultural, e
necessario a abertura, a disponibilidade e a contextualizacao do espaco publico -agora como lugar
fisico, como equipamento cultural25.
E porque o publico ultrapassa um simples conjunto de amizades, que Michael Warner
considera como uma das caracterizacoes possiveis a relacao entre estranhos26. No contexto dos
publicos, como de algum modo ja estava implicito em Simmel, o estranho/estrangeiro nao e tido nas
sociedades modernas como o maravilhoso ou exotico, pois, a presenca urbana face ao
estranho/estrangeiro e hoje rotineira, deste modo ele pertence ao nosso mundo e ao nosso
imaginario, ... .ou deveria pertencer.
No caso especifico dos publicos da cultura (dos equipamentos), e tendo em conta as
concepcoes individuals anteriormente referidas, nomeadamente as de Bernard Lahire, o
estranho/estrangeiro/imigrante tern direito ao seu lugar a titulo de participacao como pessoa
singular, resgatado portanto a mera hiper-identificacao estereotipada com a "minoria etnica" ou com
uma identidade cultural conotada com o seu pais de origem, conforme salienta Rui Pena Pires.
No enquadramento da gestao dos equipamentos culturais, deveria haver, entao, uma atencao
a gestao da diversidade cultural, o que implicaria algum nivel de analise da composicao dos
publicos utilizadores dos diversos equipamentos culturais...
23 Cf., Pierre Sorlin, Le mirage du public, Revue d'histoire moderne et contemporaine, n° 39, p.91
24 Michael Warner, Publics and Counterpublics, New York, Zone Books, 2002, p. 68. Este sera tambem um dos
topicos constitutivos da nocao de publico segundo o autor: « A public is the social space created by the reflexive
circulation of discourse».(p. 90)
25 Neste contexto, Jean-Pierre Esquenazi, esclarece que «a actividade dos publicos seria caracterizada por uma eficacia
performativa. Por outras palavras: a medida que se relacionam com os objectos/produtos culturais, os publicos vao
dando forma ao espaco social onde se desenvolvem essas relacoes» ( Sociologia dos publicos, Porto Editora, 2006,
p.84). Empiricamente falando, esta hipotese tera de ser equacionada com a gestao democratica dos equipamentos e
com tipologias de programacao cultural singularmente desenhadas, as quais teriam de ser concebidas inicialmente
em paralelo com acgoes de animacao cultural destinadas a cruzar de forma pertinente procuras e ofertas culturais.
26 « A public is a relation among strangers» (Warner, p. 74)
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Referencias Bibliograficas
Appadurai, Arjun (2004), Dimensdes Culturais da Globalizagao, Lisboa, Editorial teorema.
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Eliot, T. S. (2002), Notaspara uma definiqao de Cultura, Lisboa, Edicoes Seculo XXI.
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Fortuna, Carlos, Ferreira, Claudino e Abreu, Paula (1999), "Espaco publico urbano e cultura em
Portugal", Revista Critica de Ciencias Sociais n° 52/53, Fevereiro 1999, pp. 85-117.
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Warner, Michael (2002), Publics and Counterpublics, New York, Zone Books.
Rui. Matoso | mi.matosofgigmail.com | www.culturaviva.com.pt