O deserto em que voluntariamente nos instalámos (2007) more |
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O deserto em que
voluntariamente nos
instaldmos
com Eduardo Lourenco e Sophia de Mello Breyner Andresen
Faculdade de Ciencias Sociais e Humanas - Universidade Nova de Lisboa
Mestrado em Prdticas Culturais para Municipios
Rui Matoso
Junho de 2007
1 Citacao retirada da conferencia de Eduardo Lourenco, Gulbenkian, 25.10.2006
Predmbulo:
A Crise, tema proposto para esta "nota critica" , e, por excelencia, a nossa condicao
(in)humana contemporanea. Talvez nunca tenhamos vivido sem estarmos na companhia de
crises. Hoje, aqui e agora, dizem-nos que ela e colossal.
Este e o tempo // Da selva mais obscura2.
A Crise, e tambem uma crise pessoal, na primeira pessoa do singular, e do plural: a
minha crise....a nossa crise. Deste modo, assumirei aqui a minha dose de perplexidade, num
registo discursivo hibrido, misturando-me a mini mesmo ao ensaio e a poesia, de Eduardo
Lourenco e de Sophia de Mello Breyner Andresen.
A Crise (do grego Krisis) significa, pela sua etimologia, um momento decisivo, uma
emergencia, um risco, mas simultaneamente uma oportunidade. Portanto, ficarei exposto a
crise, escolhendo o risco de prosseguir... navegando a bolina, isto e, com muito mais
duvidas do que certezas.
I
A Historia e uma sucessao de deuses mortos, uma especie de cemiterio divino.
Antes de Pa muitos outros deuses sucumbiram, nenhum escapou a voracidade dos homens e
as suas grandes narrativas; nem Deus-Cristo acumulador de verdades e valores, que ora
aparece ora se esconde, intermitentemente, como idolatrica fantasmagoria.
Por agora habitamos o deserto, e temos medo...
Ate o ar azul se tornou grades //E a luz do sol se tornou impura3.
A sombra de Nietzsche - titulo da conferencia de Eduardo Lourenco - temos
(sobre)vivido anestesiados entre Apolo e Dionisio, entre a maternal necessidade de
seguranca e harmonia e uma permanente, furiosa e fulgurante orgia tecno-estetica.
Evitando, e certo, quase sempre o abismo que cavamos, como quern tern esperanca de
encontrar algum pedaco de um deus vivo.
Mas nada...encontramos o futuro nada, uma noite...
Densa de chacais // Pesada de amargura4.
2 Sophia de Mello Breyner Andresen, Este e o tempo..., Livro sexto, 1962
3 Ibid.
4 Ibid.
E essa e a crise, diz Eduardo Lourenco, o facto de nos termos encontrado a nos
mesmos no vertice vazio, no lugar de um Todo Poderoso, nos e os nossos queridos valores,
as nossas ilusoes geometricamente edificadas, quais reliquias cristalinas.
O deus que Zaratustra anuncia ter morrido era a nossa ultima certeza, o nosso reduto
final de verdades, de sentido, o nosso "espirito absoluto" do progresso e da historia - como
idealmente bem queria Hegel.
II
Crise de poder, crise de identidade, crise cultural, crise social, crise das
instituicoes, crise politica, crise ambiental, crise economica, crise de valores,.....mil e uma
crises.
Existirao hoje tantas crises quantos os nomes de Deus inscritos pelas religioes nas
diversas Sagradas Escrituras ? Serao as multiplas crises actuais resultado da fragmentacao,
do desmembramento do corpo de deus? Como na mitologia dionisiaca...
Ainda que tratando-se de metaforas, estas relacoes podem reflectir bem a
importancia actual da religiao no mundo, designadamente a relacao entre religiao e
identidade cultural. Na verdade, muitas questoes politicas e sociais contemporaneas giram
em torno de reivindicacoes conflituosas de identidades que envolvem grupos diferentes.
Os conflitos a nivel mundial parecem justificar-se -segundo a ortodoxia vigente-
pelas divisoes e antagonismos provocados pelos varios credos religiosos, os quais
significariam uma pertenca exclusiva e singular tambem em termos culturais. Criando
assim uma perspectiva identitaria fechada aos outros, fechada ao mundo. O que, na esteira
de Samuel Huntington, seria o tal choque das civilizacoes...
Este e o tempo em que os homens renunciam.5
Mas, o que e a identidade? Que tipos de identidade existem ? Como se formam ?
Esta e uma zona de profundas alteracoes, de varias interpretacoes e de profunda
crise, mas igualmente de oportunidades.
A crescente complexificacao do mundo e fruto da derrocada das grandes narrativas
lineares, das ideologias que marcaram todo o seculo vinte, das divisoes simplistas das
perspectivas correctas: de um lado estavam os bons, do outro estariam os maus... Esse
estado dual e estatico do mundo ja nao e sustentavel, nem possivel. A pluralidade instalou-
se, ou quer instalar-se...definitivamente ?
5 Ibid.
O passo decidido nao acerta com o cismar do paldcio
O ouvido nao ouve a flauta da penumbra6
III
No campo cultural, que e o que nos interessa aqui, a multiplicidade de
enquadramentos conceptuais e praticos e bem visivel.
Que relacao mantem hoje os individuos com a cultura, ou com as culturas? Que
significa pertencer a um dos muitos publicos das culturas?
O modo como consumimos arte e cultura e os significados que dai emergem tern
vindo a sofrer mutacoes em poucas decadas. Entre os modelos teoricos de Pierre Bourdieu (
em La Distinction) e os mais recentes desenvolvimentos nos estudos de publicos ( Richard
Peterson ou Bernard Lahire, por exemplo), e possivel verificar a mesma complexificacao
nas relacoes entre os individuos e os consumos culturais.
Se em Bourdieu o individuo ocupa uma determinada posicao no espaco social
porque possui um determinado habitus, isso significa um tipo de consumo cultural e
simbolico unificado, dando assim uma explicacao que identifica determinada elite
(detentores de capital economico e cultural) com o consumo distintivo de cultura legitima,
cujo pincaro dos pincaros seria a Opera. Assim, um determinado publico estaria disponivel
apenas para um determinado tipo de produtos, configurando-se num certo estilo de vida,
monoteista e monogamico, digamos...
Porem, segundo a matriz de estudos mais recente, vindos das correntes pos-
modernistas, os mesmos individuos possuem habitos de consumo muito diferentes,
eclecticos, portanto. Pode, por isso, ser muito possivel e natural que uma pessoa assista a
uma recita de Opera de manha, vibre com um concerto de Jazz a tarde e delire numa Rave-
party a noite - se conseguir sobreviver a tudo e sair incolume, claro!
O pensamento nada sabe dos labirintos do tempo
O olhar toma nota e nao ve7
6 Sophia de Mello Breyner Andresen, A activista cultural, in O Buzio de Cos e outros poemas
7 Ibid.
IV
Existira um consumo de crises? Crises consumidas, crises consumadas...talvez seja
essa a crise do consumo cultural, ao consumir cultura consumimos a propria natureza
humana, a segunda natureza. Consumimos-nos a nos mesmos numa autofagia encenada.
Depois de termos consumido a primeira natureza resta-nos agora a segunda.
Consumir e destruir, sumir com, extinguir-se, morrer em acto.
No mundo tribal o potlach representava bem esta associacao entre os bens
possuidos e a sua destruicao pelo fogo, uma orgia ignea.
O palindroma latino
In girum imus node et consumimur igni
usado por Guy Debord como titulo de um seus filmes-ensaio revela-se util como
metafora para uma sensacao generalizada de crise pessoal-local-social-global:
Movemo-nos na noite sem saida e somos devorados pelo fogo.
Entre a Melancolia e a Aporia, entre a depressao narcisica e o abismo.
Ha um paradoxo qualquer que emerge do fim de um universo qualquer que nos
deixa entregues a um estado de anomia qualquer, um estado de caos mental de onde podem
emergir a todo o momento as forcas primitivas da depressao, originando uma subjectividade
patologica: consumir e o verbo da destruicao... um verbo anti-cristo ... mas no principio era
tambem o verbo, qual verbo?... conhecer ? O verbo conhecer (cognoscere) e o oposto de
destruir, significando nascer com...co-nascer...nascer em acto?
- Consumir o que?
- Tudo...tudo se consome como imagem, apenas imagem enquanto imagem, elaborada e
transmitida nao so para substituir o real, mas para oferecer um suposto gozo imediato e
assim bloquear os processos psiquicos e sociais de simbolizacao, sem os quais o desejo
nao pode ser transfigurado e realizado. Paralisia do desejo no narcisismo,
impossibilidade de simbolizacao e ausencia de pensamento.
Pensar e fazer nascer mundos por dentro e por fora, consumir e destruir mundos por
dentro e por fora.............................................................
.....................a seguir vem normalmente o Prozac.........................
.....................................mas ha ainda quern prescreva Platao.